Meu coração desacelera, meus olhos ardem como se quisessem chorar. Quase me deito no canto da barbearia. Vejo que ao meu lado tem uma pequena biblioteca que se formou para entreter e enriquecer os desapressados.
Começo a sentir uma sensação de nostalgia, uma saudade que não sei explicar. Aquele tipo de saudade de um tempo que ainda não chegou. Começo a me lembrar dos meus sonhos, já sentindo uma saudade do futuro. É possível?
Sim. É possível. Chama-se Saudade do amanhã. Saudade dos lugares que pretendo conhecer, das sensações que pretendo sentir, dos aromas, sabores, das conquistas materiais e pessoais.
Imagino minha casa com um pequeno jardim, mas de múltiplas cores, poucas espécies. Brinquedos espalhados pela casa, bonecas, bolas, carrinhos, aquele sol platinado de domingo, pão francês sob a mesa, café passado, pequenos afazeres domésticos, lentos, exercidos com total precisão.
Lavo louças do jantar servido na noite anterior. Recolho duas taças de vinho esquecidas no quarto. Sim, apenas duas e que por algum motivo estavam no quarto. Aliás, por um excelente motivo. Rego o jardim com pés descalços sob a grama, sem camiseta, só de bermuda. Calma, essa nem é a melhor parte.
Vejo-a branquinha, cabelos quase da cor do próprio domingo, sorriso fácil, sardas pelo rosto, lábios rosados, macios e com uma cara e olhar de uma manhã preguiçosa. Sim, é ela! Razão de todos os meus dias parecerem domingo, fáceis, das noites serem silenciosas, do sono ser um só, dos sonhos serem realidade.
Volto a me lembrar dos meus sonhos enquanto espero minha vez, daquilo que vou viver ao seu lado, das sensações que vou sentir, do mundo que nos aguarda. Saudade do amanhã.
Retorno à leitura na barbearia e ouço uma voz ao fundo me chamando. Chegou a minha vez.